Marte, Sombra e Autotutela: o Arquétipo da Violência
Falar em Ano de Marte é falar de um arquétipo que atravessa a cultura, a mitologia e a psique humana. Não se trata apenas do planeta, mas da imagem simbólica do guerreiro, da ação, da energia que rompe e conquista, representada por Marte, equivalente a Ares, figuras que expressam o impulso, a coragem e também a violência.
Quando observamos esse arquétipo à luz da psicologia analítica de Carl Gustav Jung, compreendemos que toda energia psíquica reprimida tende a retornar de forma distorcida, e é aqui que entra o conceito de sombra, aquilo que o indivíduo e a coletividade recusam reconhecer em si mesmos, como agressividade, desejo de poder, ressentimento e impulsividade.
A agressividade não é em si patológica, ela é parte da vitalidade humana, mas quando não é integrada pela consciência ela se converte em explosão, violência e descontrole, manifestando-se tanto no plano individual quanto no social.
O chamado Ano de Marte pode ser lido simbolicamente como um período em que essa energia arquetípica se intensifica na consciência coletiva, revelando tensões acumuladas, frustrações não elaboradas e uma sociedade que não aprendeu a lidar com seus próprios impulsos.
O aumento da criminalidade, dos casos de feminicídio, infanticídio e violência doméstica não pode ser compreendido apenas como falha moral isolada, mas como sintoma de uma sombra coletiva não integrada, onde relações de poder, ciúme, posse e incapacidade de lidar com frustração se convertem em atos extremos.
No campo jurídico, a autotutela surge como expressão direta desse Marte descontrolado, pois quando o indivíduo decide fazer justiça pelas próprias mãos ele rompe o pacto civilizatório que sustenta o Estado de Direito, retornando a uma lógica primitiva de vingança e força.
O Direito moderno nasceu justamente para superar a vingança privada, centralizando no Estado o monopólio legítimo da força, mas quando a confiança nas instituições se enfraquece e o sistema penal parece ineficaz ou distante da realidade social, a sombra coletiva encontra justificativa moral para agir impulsivamente, criando um ambiente onde o discurso da violência ganha legitimidade.
O sistema jurídico penal também carrega sua própria sombra quando atua apenas de forma punitiva e não transformadora, quando falha em prevenir, educar e restaurar, contribuindo para um ciclo contínuo de exclusão e reincidência.
A família, por sua vez, muitas vezes não oferece espaço para a elaboração emocional da agressividade, reprimindo sentimentos ou respondendo a eles com violência, o que gera adultos incapazes de integrar frustração e limite.
A sociedade contemporânea, marcada por exposição constante, competição exacerbada e julgamento imediato nas redes sociais, intensifica estados emocionais extremos, produzindo uma coletividade neurótica que oscila entre moralismo punitivo e relativização absoluta da responsabilidade.
Nesse contexto, Marte deixa de ser força criativa e torna-se energia destrutiva, e a sombra coletiva encontra campo fértil para se manifestar tanto no discurso quanto na prática. Entretanto, o problema não é a existência do impulso marcial, mas sua negação ou distorção.
O amor consciente não é oposição à força, mas sua orientação ética, pois a verdadeira maturidade psíquica e social exige a integração entre firmeza e compaixão, entre coragem e responsabilidade. Marte integrado é a capacidade de defender sem destruir, de agir sem perder a consciência, de afirmar limites sem recorrer à brutalidade.
A proposta resolutiva para essa dor social passa pela educação emocional desde a infância, pelo fortalecimento de vínculos familiares que ensinem limites e diálogo, por reformas no sistema penal que incluam práticas restaurativas e por uma cultura pública que reconheça liberdade e responsabilidade como inseparáveis. Integrar a sombra significa admitir que a violência potencial existe em todos, mas que pode ser transformada em proteção, criação e justiça.
O chamado Ano de Marte, lido simbolicamente, não precisa ser um presságio de caos, mas um convite ao amadurecimento coletivo, onde Direito, psicologia e filosofia dialoguem para reconstruir o pacto social.
O desafio não é eliminar o guerreiro interior, mas torná-lo consciente, pois somente quando a força se submete à ética e o impulso é iluminado pela consciência é que a sociedade deixa de agir por autotutela e passa a agir por justiça, transformando Marte de símbolo de guerra em símbolo de coragem responsável.

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